O Blog:

Amigos e conterrâneos camocinenses, a gente só dar o que tem. Quando pensamos editar um blog, este foi o pensamento: doar todo nosso esforço na construção de uma ferramenta como esta para a divulgação pura e simples da nossa história. Contudo, essa é uma oportunidade de todos participarem desta empreitada, seja comentando, sugerindo, corrigindo e, efetivamente, participando dessa grande viagem que a História nos proporciona. Que nosso "POTE" nunca encha e sacie a todos!!!

quinta-feira, 5 de março de 2015

BARROQUINHA E CAMOCIM - HISTÓRIAS DA EMANCIPAÇÃO




Praça da Matriz. Barroquinha-CE. Fonte: www.blogwiltonveras.com

Numa sexta-feira, dia 12 de Fevereiro de 1988, no caderno Cidades do jornal O Povo, o jornalista Lúcio Brasileiro em sua coluna espinafrava:

 "Mais um
 Querem tirar Barroquinha de Camocim, quer dizer, vem aí um daqueles irresponsáveis e demagógicos plebiscitos".

Nada melhor do que o tempo para mostrar o quanto nossos juízos de valor, arquitetados no calor da hora ou na ideologização das mentes são volúveis. Não digo que um processo de emancipação de um lugar não comporte interesses políticos, econômicos e até demagógicos e, no caso em tela, todos sabem desses interesses, mas, não fosse esse expediente, como estaria a tosca vila avistada por pescadores náufragos que um dia chamou-se Paço Imperial, tem como padroeira Nossa Senhora dos Navegantes e foi distrito de Camocim até 1988? Hoje, as normas e regras para a emancipação de municípios estão mais rígidas. No entanto, hoje, talvez não se encontre um barroquinhense que veja no ato de criação do município, incentivado por filhos do município mãe Camocim e confirmado pela população de Barroquinha em plebiscito, como o renomado jornalista, que à época julgou ser um ato irresponsável.



Fonte: Jornal "O POVO",  Caderno CIDADE, Sexta-feira, p. 8, 12/02/1988


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

PROBLEMAS NA CONSTRUÇÃO DA ESTRADA DE FERRO CAMOCIM-SOBRAL

Rede de Viação Cearense. Fonte: IBGE/CNG. 1954

No mês de setembro do ano de 1878 era iniciado os trabalhos de construção da Estrada de Ferro de Sobral em sua primeira seção no trecho compreendido entre Camocim – Granja. No ano seguinte, em 26 de março de 1879, o Presidente da Província Dr. José Júlio de Albuquerque Barros (futuro Barão de Sobral), inaugurava o assentamento dos trilhos em solenidade festiva. Quase dois anos depois, em 15 de janeiro de 1881 era inaugurado o primeiro trecho entre Camocim e Granja numa extensão de 24, 5 km. Até aí, a obra, parece não ter tido muitos problemas no cronograma de execução. Só aparência, pois, já naquela época isso já se pronunciava como um "modelo" brasileiro na construção civil. Se acreditarmos na imprensa da época, o governo imperial já se debatia ou era conivente com os atrasos de obras, coisa comum atualmente. Desta forma, a Revista Illustrada de forma irônica e satírica já denunciava estes atrasos no projeto ferroviário do governo imperial. Pouco depois da inauguração do trecho ferroviário citado acima, a publicação dizia:

"Foram suspensos os trabalhos da estrada de ferro de Paulo Alfonso, e vão se-lo brevemente os da do Camocim a Sobral.Dentro em pouco d'este modo, não teremos senão trabalhos no ar." 

Não sabemos se efetivamente a Estrada de Ferro de Sobral sofreu interrupção como profetiza a nota da Revista Illustrada, contudo, pode ter servido de alerta, visto que, dois meses depois, em 14 de março de 1881 era inaugurada a Estação de Angica (Martinópole), distante 43,7 Km da Estação de Camocim.


Fonte para a citação: Revista Illustrada - Ano 6 - n. 240. 1881.p.3

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

AS MULHERES DA BEIRA DO CAIS DE CAMOCIM

Antiga zona portuária de Camocim. Arquivo do blog.
Houve um tempo em que me dediquei todas as manhãs para pesquisar a documentação do fórum local e, saltou-me os olhos como as mulheres são tratadas nos inquéritos. Há um óbvio machismo contido nos depoimentos, sem contar a maneira como as mesmas são desqualificadas ou deslegitimadas nos processos, principalmente nos de sedução e defloramento.
Sem declinar nomes, posto que, é factível que familiares dessas pessoas ainda estejam vivas e, para resguardar a privacidade das mesmas, utilizaremos nomes e apelidos fictícios para nossas histórias. Note-se também a íntima relação feita nos casos  aqui citados das “profissionais do sexo” com o antigo cais do porto e com os homens do mar.
Em 1919, o Presidente da Associação Comercial em ofício enviado ao Delegado de Polícia de Camocim, pedia enérgicas providências para conter os roubos das mercadorias deixadas fora dos armazéns do porto por um “grupo de vagabundos – homens ociosos, meninos vadios e mulheres da vida airada”. Além do preconceito, a associação da prostituição com o roubo. Em outro ofício, o presidente,  chama a atenção da autoridade para conter os “actos indecorosos contra a moral que succede muitas vezes serem testemunhas dessas scenas, famílias que por alli passam”.
Mas, a mocinha que não quisesse “ficar falada” teria que primar pelo recato e evitar andar com “os marinheiros de bordo dos navios que ancoram neste porto”. Esta foi a alegação que deu o pescador Raimundo Preamar para não se casar com a menor Branquinha, filha da prostituta Maria “Rabo Grande”, acusado por esta de tirar-lhe a virgindade. Raimundo Preamar acaba se casando com Branquinha no religioso, por pressão do delegado, mas não “faz vida com ela”. O interessante nesse caso é que, independente do comportamento de Branquinha que nasceu e se criou na zona do Terrimar o que pesa nas declarações das testemunhas é a vida pregressa de sua mãe. Uma testemunha arrolada diz que ela é a culpada por não “botar sentido o namoro ceboso de sua filha”. O próprio acusado diz que a mãe de Branquinha “é mulher do bagaço, meretriz”. Maria “Rabo Grande” fazia ponto no Mercado Público durante o dia e se embebedava frequentemente à noite pela beira do cais. Apesar disso, a história tem um desfecho surpreendente e o acusado é condenado a trinta meses de reclusão e cumpre efetivamente doze.
Uma outra queixa chega à Justiça, após a menor “ofendida”, codinome Danadinha, já ter tido o filho, pretenso fruto do “congresso sexual” entre ela e o sedutor João Miguel. Nos autos de declarações, a mãe da vítima disse que não tinha representado antes contra João Miguel porque o mesmo vinha sempre prometendo casar com sua filha que foi seduzida  pelo mesmo com a promessa de lhe dar “uma casa e uma vaca”. Como podemos perceber, não é só político que promete. João Miguel se vale de testemunhas que apontam uma má conduta da ofendida. Uma delas declara “Danadinha costuma frequentar o cais local, entrando no interior dos navios que ali atracavam, demorando bastante em companhia de tripulações de barcos ancorados no Porto de Camocim”. Um outro diz: “... que a ofendida sempre viveu solta na rua, sem que os pais olhassem para o procedimento da mesma”.
As próprias alegações finais da Promotoria já apontam para o desfecho final deste processo, pedindo a absolvição do imputado: “A vida, o meio ambiente onde laborava a menor, facilmente a levariam ao mundo do vício, tendo-se em vista não ter um lar honesto e sem mancha, quando uma das testemunhas alega haver mantido relações sexuais com Danadinha, tendo o próprio pai em casa (dela)”. Na sentença de absolvição do acusado, o Juiz ressalta que o acusado “é pessoa de conceito na cidade (...) sendo sua palavra, por isso mesmo, merecedora de fé, até prova em contrário”. 
Poderíamos citar inúmeros casos pesquisados, mas, talvez o leitor não esteja interessado em saber das artimanhas usadas para se deflorar uma “pequena incauta” de antigamente.

domingo, 11 de janeiro de 2015

CONSCIÊNCIA POLÍTICA EM CAMOCIM. SÉCULO XIX.

Fonte: Jornal "A Pátria". Agosto de 1890, p.3.
Na última década do século XX Camocim experimentava seus primeiros anos de cidade emancipada. A transição da Monarquia para a República também era recente. Na parte política essa transição se dava ao sabor dos interesses, como mostra a notícia do jornal  "A Pátria" de agosto de 1890. Nela está contido o protesto de um grupo de cidadãos que se diziam "operários e artistas" que reclamam de terem sido usadas suas assinaturas por outros para a constituição de um partido. Vale dizer que naquela época, "artistas" eram profissionais especializados em um ofício como carpinteiro, bombeiro, ferreiro, etc.
Na pequena nota, pode-se compreender que naquele momento os operários já tinham a clarividência da importância de se mostrarem na cena política representados por um partido político, afinal, suas assinaturas foram conseguidas para se fundar "um partido operário de socorros mutuos", confundindo-se assim, partido político com associações mutualistas e beneficentes. No entanto, uma leitura mais atenta do programa deste partido motiva a nota de protesto dos operários no jornal, que identificam o objetivo de "fazer política" com seus nomes.
Não satisfeitos com o uso de suas assinaturas, os operários Manuel Xavier Pacheco, Antônio Barachio dos Santos, Antônio Gomes de Souza, Manoel Barros Galgão e Francisco Damience Fiúza, denunciam o desvio de objetivo que os senhores Aderson, Torquato Pessoa e Luís Gomes de Lima estão fazendo com seus nomes e os desautorizando de tal expediente, ao tempo em que reafirmam pertencerem ao Club Republicano de Camocim "filiado ao Centro de Fortaleza".
Ao pertencerem e reafirmarem seus vínculos com o Club Republicano, os operários procuram também estar sintonizados com os novos ares da política prometidos pelo ideário republicano que aos poucos se afirmava na cena política.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

CAMOCIM NAS LEMBRANÇAS DE J. MACÊDO - PARTE II

J.Macêdo e o jornalista Glauco Carneiro conversando com pescadores. Camocim.1988.


Como dissemos na postagem anterior "... sua história de sucesso é contada e recontada em livros, reportagens e documentários". Uma delas é a biografia feita pelo jornalista cearense radicado no eixo Rio/São Paulo Glauco Carneiro, intitulada "J. Macêdo. Uma saga empresarial Brasileira" (1989). Uma outra biografia mais recente, saiu em 2010, "Parece que foi amanhã", mas dela falaremos depois. Instado pelo autor da biografia em realizar uma viagem sentimental à Camocim (1988), J. Macêdo percorre os caminhos da memória infantil e de aprendiz de comerciante assim descritos pelo autor: 

"... José Dias Macêdo reviu a casa onde nasceu, situada na esquina das ruas Independência e Bom Jesus onde hoje funciona uma escola que atende a 300 menores. A fachada, algo modificada em relação ao tempo de menino, não impede as recordações. Trata-se de uma daquelas residências típicas, antigas, com corredor central e aposentos nas laterais." (p.40).

Em outra passagem:

"Com a crise de 1929 a situação econômica de Camocim agravou-se e a firma de Manoel Dias Macêdo entrou em concordata, forçando-o a vender casa. A família, então, foi morar em imóvel alugado, enquanto o comércio transferiu-se para o mercado. E ali José participou com o pai em um novo tipo de negócio: aquisição e venda de peles de animais silvestres. Na época, havia muita oferta e procura de couros de cobra, gato maracajá, tijuassu, sapo. O menino, já quase rapazinho, acordava de madrugada e ia esperar os caboclos que se deslocavam até à sede do município, a cavalo ou jumento, e os acompanhava por algum tempo, indagando se levavam peles. Se isso acontecia, fazia-os parar, classificava os produtos e os adquiria em nome do pai, que depois enviava para Fortaleza, em revenda aos exportadores". (p.43).

No restante da obra, o autor descreve a trajetória comercial dos Macêdo até sua ascensão com capitão de indústria. Numa perspectiva linear, este tipo de escrito começa pelas lembranças de menino. este parece ser o lugar de Camocim nas memórias do ilustre biografado.




Fonte: In: CARNEIRO, Glauco. J. Macêdo. Uma saga empresarial Brasileira. São Paulo: Edicon. 1989, p .40-3.
Foto: Idem, p.37.

sábado, 6 de dezembro de 2014

CAMOCIM NAS LEMBRANÇAS DE J. MACEDO

José Dias Macêdo.
Fonte: coisadecearense.blogspot.com
Ele está entre os maiores empresários do país. Sua história de sucesso é contada e recontada em livros, reportagens e documentários. Já tratamos da sua trajetória politica aqui no blog na série PARLAMENTARES CAMOCINENSES. Mas, o que liga a história e a figura de José Dias Macedo (J. Macêdo) à Camocim além de ter sido seu lugar de nascimento? Há quem diga, que o mesmo fez ou faz muito pouco pela sua cidade natal. Não quero entrar nesse mérito, afinal de contas um empresário do seu porte aprendeu onde e como investir seu dinheiro. Lembro ainda do seu discurso de inauguração do Colégio Georgina Leitão Macêdo quando pedia desculpas aos vizinhos pelos transtornos que a obra tinha provocado. Como bom negociante fez uma rápida referência, entre o cômico e o irônico, sobre os preços que teve de pagar por umas casinhas para que o empreendimento escolar pudesse ter aquela estrutura. Para mim,  importante é o fato de o grande empresário não negar suas origens, escrevendo nossa cidade na história empresarial e industrial do país. Do alto dos seus 94 anos, pelo menos as lembranças da infância são imorredouras, como as relatadas ao jornalista João Soares Neto
"Embora eu morasse em uma casa simples e fosse um menino pobre, nunca senti essa pobreza porque sempre fui muito bem alimentado e contei com a convivência de uma família com muitos irmãos e tios. Contei também com pai e mãe muito empenhados com a formação dos filhos. Nasci em uma cidade praiana e na praia tem sempre o que comer. Tem também muito espaço para a gente se divertir. Costumávamos atravessar o rio Coreaú numa canoa à vela para ir tomar banho de água doce nas lagoas formadas entre as dunas. Existiam muitas lagoas. Como a gente tomava banho pelado, os meninos ficavam separados das meninas. Cada qual em uma lagoa. Na época de caju, a gente se reunia para chupar caju e assar castanha. Meu pai sempre levava a gente para passar as férias em um lugarzinho perto de Massapé, chamado Riachão, por onde passava a estrada de ferro, e ali a gente tinha contato com outras pessoas. Era muito bom. Camocim, comparado com Riachão, era uma cidade avançada, tinha porto e o trem estacionava dentro da própria gare. Era uma festa a espera do trem nos dias de domingo. Quer dizer, fui um menino pobre, mas com uma infância muito saudável."

Fonte entrevista: www.joaosoaresneto.com.br/entrevistas_dias_macedo.asp

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

SOBRE O "DIA DA CIDADE" DE CAMOCIM

Enseada dos Barcos. Camocim-CE. 2013. Foto: Vando Arcanjo.

                Comecei a me perguntar sobre o porquê de nossa cidade não ter o seu dia. Não, não estou falando do 29 de setembro que é o dia do município. Muitos lugares comemoram  esses dias distintamente, como por exemplo, a cidade de Fortaleza, a nossa capital. Poderíamos, portanto, comemorar o dia 17 de agosto, afinal de contas, o então distrito da Barra do Camocim foi elevado à categoria de cidade quase dez anos depois de ter se tornado município pela Lei Nº 2.162, de 17 de agosto de 1899, ano no qual, aliás, foi proclamada a República no Brasil.
            Nestes 115 anos de cidade temos uma história que nos é peculiar, feita por seus habitantes e quem chega nela, afinal de contas, a cidade nada mais é o que nós somos individual e coletivamente.  Camocim, portanto, já foi apelidada de “Pequena Moscou”, “Cidade Heroica”, “Moscouzinha” e “Cidade Vermelha” pela imprensa comunista dos anos 1940, denominações estas que evocam um passado denunciador de uma intensa atividade política dos trabalhadores no porto e na ferrovia.
            Se temos um belo hino que começa assim:Verdes mares bravios do norte/A lutar nesse eterno fragor,/Como vós nosso povo é tão forte,/Tão feroz, pertinaz, lutador.” (Trecho do Hino de Camocim. Letra e música: Prof. Francisco Valmir Rocha), poderíamos ter a canção da cidade, algo do tipo: Camocim,/ Claro céu cristal/ Coqueiros cacheados/ Cajueiros copados... (Camocim-Ceará: Música: Raimundo Arnaldo). Mas também poderíamos fazer um concurso para escolher tal canção.
            Enfim, fica a sugestão para termos mais uma data para o calendário turístico e uma oportunidade de mostrarmos nosso potencial cultural, como o que aconteceu no último sábado com a "Feira Pote de Saberes".