O Blog:

Amigos e conterrâneos camocinenses, a gente só dar o que tem. Quando pensamos editar um blog, este foi o pensamento: doar todo nosso esforço na construção de uma ferramenta como esta para a divulgação pura e simples da nossa história. Contudo, essa é uma oportunidade de todos participarem desta empreitada, seja comentando, sugerindo, corrigindo e, efetivamente, participando dessa grande viagem que a História nos proporciona. Que nosso "POTE" nunca encha e sacie a todos!!!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

OS ESTRANGEIROS EM CAMOCIM. OS HOLANDESES

Ocupação Holandesa no Ceará. Século XVII.
Os holandeses dominaram o que se chama hoje de nordeste na primeira metade do século XVII. De 1630 e 1654, através da  Companhia das Índias Ocidentais, os objetivos dos mesmos eram controlar a região produtora de cana-de-açúcar, além de, explorar a terra em busca de outras riquezas.
Neste sentido,os holandeses exploraram bastante a região do rio Camocim a ponto de terem erguido uma fortificação para melhor proteção de suas explorações na embocadura do rio, próximo à atual Granja,além de um outro em Jericoacoara.Depois que o Conde Maurício de Nassau se instalou em Pernambuco mandou missões de reconhecimento ao Ceará para sondagem de suas potencialidades econômicas. Desta forma, Gedeon Morris confirmou a existência de boa quantidade de sal, âmbar gris e do pau violeta (tatajuba). O explorador holandês ainda fez referências a existência de 30 tribos tapuias e da excelência do porto para as atividades de carregamento de navios. Nas palavras da historiadora Rita Kromemem constata-se: "expedição para Camocim valeu a pena. Gedeon Morris encontrou outra salina rendosa, distante da costa apenas 1700 passos. O porto prestava-se também ao carregamento de navios. Por outro lado, viviam nos arredores 30 tribos tapuias, das quais apenas dez eram aliadas aos holandeses. Por isso queria o zelandês (sic!) ir ao interior da região, a fim de atrair mais índios para os seus homens através de atitudes humanas e de bom tratamento. Também não esqueceu de preparar uma determinada quantidade de madeira corante para exportação.(KROMEMEN, Rita. Mathias Beck e a Cia. das Índias Ocidentais. O domínio holandês no Ceará colonial. Fortaleza: UFC, 1997, p. 56).
 Por outro lado, a presença de holandeses na região pode ser atestada pelos registros após a Guerra da Restauração que expulsou os mesmos de Pernambuco com os índios que lhe eram aliados. Referindo-se à crônica da guerra, o historiador Ronaldo Vainfas assinala: "Outro chefe notável do chamado “partido holandês”, entre os potiguaras, foi Antônio Paraopaba, guerreiro afamado, responsável por várias vitórias holandesas na fase do domínio holandês contra os restauradores de 1645. Foi um dos chefes dos massacres perpetrados pelos holandeses em Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande, em 1645, respectivamente em julho e outubro, e comandante da retirada dos índios para a Serra da Ibiapaba, no Ceará, depois da derrota holandesa de 1654.(VAINFAS, Ronaldo. Traição. Companhia das Letras, 2008). 
A presença holandesa no Ceará será retratada em documentário num projeto denominado Neerlandeses Missão em Terras Alencarinas sob a direção do jornalista Roberto Bomfim trazendo depoimentos de historiadores e moradores das localidades visitadas pelos holandeses de então.

Fonte da foto:http://cearaemfotos.blogspot.com.br/2011/05/ocupacao-holandesa-no-ceara.html

domingo, 13 de julho de 2014

OS ESTRANGEIROS EM CAMOCIM. OS FRANCESES


Praia das Barreiras. Fonte:www.groupon.com.br
Uma cidade que se ergue à beira do mar, ao redor de um porto tende a ser uma porta aberta para a chegada e fixação de estrangeiros e aventureiros que, talvez, por "serem de fora", enxergam no lugar outras possibilidades e belezas que os nativos, habituados com a paisagem diária, não percebem. Iniciamos, portanto, uma série de postagens onde destacaremos as passagens de estrangeiros por Camocim, analisando suas contribuições para a formação da cidade ou apenas simples e efêmeros momentos que aqui desfrutaram. Começaremos, até por uma questão cronológica, pelos franceses.O processo de colonização da Capitania do Ceará pelos portugueses, como se sabe, se deu tardiamente. Essa demora, permitiu que outros navegantes explorassem nossa costa, como os franceses o fizeram. Quando os portugueses deram por si, sobre a possibilidade de perderem esta parte do território no começo do século XVII e enviaram a expedição de Pero Coelho em 1604 para a expulsão dos franceses da Ibiapaba, há muito os mesmos já negociavam com os índios as chamadas "espécimes de fauna e flora" da região. Por conta desse contato, os franceses quase sempre tinham a simpatia e a aliança das tribos indígenas e de seus "maiorais" (como eram chamados seus líderes) nas guerras de ocupação contra portugueses e holandeses.Os franceses, portanto, exploraram bastante o comércio com os índios Tabajaras da Ibiapaba usando o rio Camocim ou rio da Cruz (atualmente Coreaú) e logicamente fazendo essa rota conhecida em seus documentos náuticos e históricos. Como vimos acima, a expedição de Pero Coelho de 1604 acaba por expulsar os franceses da Ibiapaba iniciando efetivamente a colonização portuguesa na região. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

FAROL DO TRAPIÁ - O FAROL DE CAMOCIM

Marinheiros fazendo manutenção no Farol do Trapiá. Camocim-CE. 

As primeiras referências do farol de Camocim chegaram a mim como Farol do Trapiá lendo a obra do escritor imortal Carlos Cardeal no romance "Terra e Mar". Depois, num trabalho da faculdade no final dos anos 1980, uma colega camocinense me apresentou uma foto do referido farol que me ficou na lembrança. Mais recentemente, algumas pessoas nas redes sociais fizeram referência ao atual farol como uma construção sem nenhum atrativo arquitetônico, fazendo comparação com um antigo farol erguido na praia do mesmo nome. Independente da importância maior que um farol tem para os navegantes, para nossos irmãos pescadores que é sinalizar a entrada da nossa barra, fui atrás de fotos da antiga construção e acionei o acervo da Marinha do Brasil através do meu irmão Suboficial(HN)Luís Carlos Pereira dos Santos. O resultado será mostrado nesta e futuras postagens. Na foto, observamos marinheiros fazendo serviço de manutenção no farol tendo ao lado uma construção sólida de uma casa, provavelmente para morada do faroleiro





FONTE: Marinha do Brasil. CAMR-Centro de Sinalização Náutica Almirante Moraes Rego.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O PATRIMÔNIO DE CAMOCIM EM 1890





Mercado Público de Camocim. Fonte: arquivo do blog.
Patrimônio é o que se tem, o que se herda, o que se preserva e também o que se perde! Embora o texto não verse sobre a moderna noção de patrimônio, notadamente sobre sua classificação em material e imaterial e a consequente sensibilização de preservarmos os bens materiais de um povo, de um município, gostaríamos de discutir um pouco sobre o que seria isso no tempo. Quando Camocim não passava de um pequeno burgo, emancipado recentemente de Granja, o patrimônio informado pelo Intendente ao Presidente da Província do Ceará em 1890, resumia-se a:
Seis quartos no Mercado Público desta cidade, construído de tijolo e barro no valor de 300$000 cada um; 
 Uma cacimba pública em frente ao Mercado construída de alvenaria ordinária no valor de 50$000; 
 Um curral de madeira para recolhimento de gado destinados ao consumo público no valor de 150$000;  
Um cemitério construído de tijolo e cal no valor de 1:500$000; Um açude na povoação da Barroquinha, neste município, construído de barro no valor de 2:000,000.
Camocim, 4 de setembro de 1890.
O Secretário da Intendência
José Carneiro de Araújo. 
Esse era o nosso patrimônio, no valor exato de 4:000$000 (quatro contos de réis). Mais do que uma curiosidade histórica, vale fazer um alerta para a questão do registro nos arquivos municipais: quase nada temos sobre os tempos pretéritos e o que se tem está se acabando pela voracidade do tempo e o descuido com os documentos, além do que esta responsabilidade é do poder público. Se eu não tivesse feito esse registro quando da publicação do livro A Casa do Povo em 2008, ficaria difícil, por exemplo, algum setor da Prefeitura Municipal localizar algo sobre o Mercado Público de Camocim no 1º Livro de Officios Expedidos.
Fonte:  1º Livro de Officios Expedidos.
SANTOS, Carlos Augusto P. dos. A Casa do Povo. História do legislativo Camocinense, 2008. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O LAGO SECO. ESPAÇO DO LAZER E CULTURA POPULAR DE CAMOCIM

Lago Seco. Arquivo:bookcamocim.blogspot.com
Recebo notícias de que pouco a pouco nosso Lago Seco vem deixando de ser tão seco e acumulando água, deixando o lugar mais bucólico  para os camocinenses e turistas desfrutarem de suas belezas e aconchego. Pensando nisso, reproduzo um texto feito pela historiadora camocinense Jana Mendes que agora mora em São Paulo sobre o referido local, publicado no livro "Cidades Visíveis" organizado por mim e que reúne relatos de natureza histórica e cultural de várias cidades da zona noroeste do Estado do Ceará. Leiamos o que a Jana escreveu sobre, digamos,  os usos noturnos do Lago Seco de Camocim



  1. ESPAÇOS DE LAZER E CULTURA POPULAR EM CAMOCIM-CE.

                                                                                                                Jana da Silva Barbosa Mendes. 1

As noites de Camocim com seu clima agradável propiciam uma visitação à Avenida Beira-Mar onde estão concentrados os bares e restaurantes e toda a movimentação, principalmente durante as noites de sábado, momento que as famílias e a juventude ocupam o espaço urbano utilizando para o seu lazer.
Estes encontros podem ser para encontrar e conversar com amigos, tomar uma alguma bebida ou namorar. São várias as possibilidades existentes sobre a apropriação do espaço da cidade na construção de uma sociabilidade cultural.
Essas noites de sábados são regadas à música, especialmente o forró eletrônico, estilo que mais se ouve nos dispositivos midiáticos em difusão. O álcool está presente nos copos das mesas dos bares onde as gargalhadas e os tons de voz alta soam pelo calçadão da beira-mar. Desafiando os ouvidos estão presentes os chamados “paredões” onde tocam as músicas “da moda” a gosto popular. É possível observar como algumas pessoas se comportam no momento em que estas músicas são tocadas, muitas vezes impossíveis de serem ignoradas, já que o forró eletrônico mostra uma linguagem estilizada e chamativa.
Dessa forma, os espaços de sociabilidade são construídos pelas pessoas que frequentam o local e isto não deixa de ser um fato social e produção cultural.
Outro espaço da cidade utilizado nas noites de sábado e madrugada de domingo pela juventude de Camocim é o calçadão e as barracas do Lago Seco, onde dançam, bebem, conversam, paqueram ao ritmo do forró eletrônico, por muitas vezes reproduzindo um “estilo de vida” propagado pelas músicas em questão, que enfatizam a figura masculina como dominante sexual e o uso de bebidas alcoólicas, dentre outros temas próprias deste estilo musical.
É possível observamos jovens ao redor de paredões ou em mesas das barracas, portanto espaços propícios à conversação (nem tanto, face aos altos decibeis) e interação entre grupos de jovens. Na falta de clubes e festas, outros jovens se juntam a estes num momento livre para a distração. Caracterizam-se pela sua dimensão coletiva, pois é algo compartilhado por todos e a sua configuração espaço-temporal é determinada.
Nesse sentido, os locais de encontro dos jovens de Camocim são considerados como uma prática social e cultural, onde revelma um tipo de sociabilidade presente nessa juventude, embora entendamos que isso se dê por causa da falta de outras oportunidades e espaços para que essa mesma juventude possa sociabilizar-se.


1 Graduada em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA. Sobral-CE.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

REFLEXÕES SOBRE O PRIMEIRO DE MAIO

Fonte: historiadigital.org
Há dois anos escrevi este texto para um jornal local de Sobral para marcar a passagem do feriado de Primeiro de Maio. No entanto, o mesmo não chegou a ser publicado e nem me foi dito o porquê. Relendo-o, acho que o mesmo contêm alguma atualidade, no sentido do que vem se transformando a data que homenageia o trabalhador. Geralmente, as postagens nesse blog se referem exclusivamente à história de Camocim, inclusive já nos reportamos sobre essa data na história do município por mais de uma vez. Embora o texto se refira e seja inspirado noutro espaço - a cidade de Sobral; as reflexões sobre a data e o feriado servem para a compreensão geral do que permite nossa observação. Vamos ao texto:

O Feriado do Dia do Trabalho – os novos sentidos do Primeiro de Maio.
Grandes e pequenas passeatas, desfiles representativos do mundo do trabalho, debates nas sedes de agremiações sindicais e congêneres, sessões de teatro com temáticas proletárias, torneios esportivos, ações de luta para a conscientização das categorias profissionais e até anúncio do salário mínimo pelo governante do plantão, são manifestações que deram sentido a data do Dia do Trabalho que ficaram para trás, na esteira da modernidade globalizante que o capitalismo produziu, com intensa repercussão nos seus sentidos simbólicos.
Com efeito, a política do “pão e circo” produz novos sentidos para a data que, até vinte anos atrás, era apropriado pelos trabalhadores para escancarar em grandes atos políticos, as denúncias das relações vis impostas pelo patronato, principalmente no ABC paulista, na esteira daquele movimento protagonizado pelos metalúrgicos no final dos anos 1970 e que marcou um novo tempo no sindicalismo brasileiro, com as repercussões sociais e políticas que todos nós conhecemos.
Desta forma, uma data que nasceu da luta de trabalhadores norte-americanos no longínquo ano de 1886 pela jornada de 8 horas, que naquela época atingia até 14 horas (com a repressão ao movimento, foram condenados à morte e prisão perpétua), hoje se reconfigura com a promoção das multinacionais e centrais sindicais que lhe dão novos sentidos, promovendo grandes shows com cantores e bandas de sucesso, sorteios de carros e apartamentos. É a política de “pão e circo. Qualquer semelhança com manhãs de sol, churrascos, sorteio de cestas básicas e outros brindes, shows na Margem Esquerda não é mera coincidência.
Essa mudança nos sentidos do Primeiro de Maio que, historicamente teve seu caráter combativo, assim como festivo, embora em menores proporções que atualmente, foi devida, segundo o sociólogo Ricardo Antunes à “implementação do neoliberalismo e com reestruturação produtiva, que gerou a desestruturação da classe trabalhadora, com uma política agressiva de práticas anti-sindicais. Isso acabou conferindo uma transformação no plano das centrais sindicais. Por exemplo, em 1990 nasceu a Força Sindical. Ela herdou o velho peleguismo sindical brasileiro, que queria se reciclar, e se somou com um ideário neoliberal que deu o toque ideológico a essa nova direita. Foi a Força Sindical que introduziu essa prática que é recorrente hoje em todas as centrais sindicais, de um 1° de maio como um circo para os trabalhadores e trabalhadoras”.

         Desta forma, um leitor ou um observador mais atento ficará na expectativa do que irá acontecer em Sobral, o município que é pólo empregador da região noroeste do estado do Ceará, com seus milhares de postos de trabalho. Onde encontrar os trabalhadores nesta terça-feira dedicada, paradoxalmente, ao ócio? Que pelo menos seja ócio criativo para a maioria deles. No entanto, é bem provável que, na falta da Parada Gay, o divertimento se dê diante dos agudos de Agnaldo Timóteo e dos grunhidos de Joelma Calypso. O que diria disso tudo “O Operário de Deus”, epíteto pouco cultivado de D. José Tupinambá da Frota? Diante do exposto, só posso dizer que da data em questão, saiu o proletariado e ficou o feriado.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

OS DOIS CISNES DE CAMOCIM. EM MEMÓRIA DE PE. LUÍS XIMENES.

"Camocim, o cotidiano de um povo". Tela de Eduardo de Souza. 

A  foto ao lado é da tela do artista camocinense Eduardo de Souza, intitulada "Camocim, o cotidiano de um povo", por mim encomendada e que serviu de base para a elaboração da capa do nosso próximo livro "Entre o Porto e a Estação...". Tal livro é o resultado de nossa pesquisa de doutorado defendida em 2008 na Universidade Federal de Pernambuco e que será lançado em breve. Voltando à tela, a mesma mostra em seu primeiro plano uma velha Maria Fumaça trafegando à beira mar, de frente para armazéns e a Estação Ferroviária ao fundo. Em segundo plano, mas, não menos vistoso o famoso navio Aratanha ancorado em um dos trapiches e um outro um pouco mais afastado. Trabalhadores carregando os navios e passageiros que chegam compõem o resto da cena. Hoje, descobri uma coincidência entre um texto e a tela ao reler o livro "Paixão Ferroviária" do Pe. Luís Ximenes, camocinense que nasceu em Camocim na Rua do Egito e foi o grande pastor de ovelhas humanas no município de Santa Quitéria. A tela de Eduardo de Souza parece ter saído das reminiscências do nosso querido sacerdote, intitulada Dois Cisnes às páginas 90-91: 

"Outrora, o reino do trem de ferro, no norte do Ceará, tinha o seu trono na cidade de Camocim, à beira-mar. Naquela idade de ouro, a locomotiva e o navio, quais dois cisnes, viviam a nadar felizes, um ao lado do outro. O navio, no espelho azul das águas daquele mar fluvial, e a locomotiva, na lâmina dos trilhos da Rede Ferroviária Federal. [...] Camocim vive curtindo a sede do que já foi, e já perdeu a esperança de voltar a ser de novo aquela mesma cidade que foi ontem com o trem dentro de casa, com aquela estação movimentada regorgitando de gente à espera e à saída dos trens. A ferrovia dinamizava a região inteira, da praia até o sertão".
Afora o saudosismo do padre, filho de ferroviário, que tinha a paixão dos trens no coração, o artista Eduardo de Souza parece seguir os mesmos trilhos com um pincel na não e um trem na cabeça a retratar de vários ângulos nosso passado ferroviário. Mesmo sem se inspirar no texto, os dois cisnes estão na tela que representa nosso espaço de identidade histórica que marcou a vida de muitos camocinenses.

Fonte: XIMENES, Pe. Luís. Paixão Ferroviária. 1984.
Foto: Arquivo do blog.